A perfeição já existe?

 

A nova Zeiss Distagon 55mm f/1.4 foi projectada com a perfeição em mente. Segundo as amostras apresentadas, é realmente impressionante a nitidez e contraste conseguidos com esta objectiva mesmo a f/1.4. Arrisco-me até a afirmar que é algo nunca antes visto numa objectiva deste tipo.

No entanto não consigo deixar de desconfiar de comentários que leio em diversos fóruns a classificar esta Zeiss de “a 50mm perfeita”, e julgo que qualquer fotógrafo que tenha tido a experiência de procurar a melhor objectiva 50mm perceberá porquê.

A minha experiência pessoal na busca de uma 50mm começou com a Zeiss Planar T* 50mm f/1.4 na sua versão para Contax/Yashica que, com um adaptador para Canon EOS, era na altura uma objectiva relativamente económica e com um nome que por si só parecia indicar que tinha tudo o que alguém pode querer (o clássico exemplo de sabedoria de bolso: julgar sinónimos de qualidade marcas como a Leica ou Zeiss).

Mas apesar desta minha primeira 50mm ter uma excelente qualidade de construcção com tamanho e peso perfeitos e oferecer imagens com a maior resolução que já consegui com a Canon 5D MkII, falhou num ponto fulcral: não consegui gostar das fotografias que fazia com esta objectiva.

Pessoalmente gosto de usar as 50mm para isolar os sujeitos na fotografia mantendo uma perspectiva “normal” (apesar de ser fácil isolar sujeitos com teleobjectivas, não gosto do aspecto comprimido e artifical que estas conferem às fotografias). A nitidez e o famoso micro-contraste à la Zeiss desta 50mm não me valiam de nada quando a qualidade do desfocado (o famoso bokeh) tinha um aspecto demasiado “forte” e competia pela atenção com o sujeito que estava focado em vez de ajudar a destacá-lo.

Resgatei dos meus arquivos alguns exemplos do “problema” que referi acima (se clicarem nas imagens podem ver uma versão maior):

Aqueduto das Águas Livres, Lisboa, 2009 © Ricardo Silva Cordeiro Exemplo da qualidade do desfocado da Zeiss Planat T* 50mm f/1.4. Mesmo com a paisagem de fundo a grande distância o desfocado é muito “frenético”.

Madrid, 2010 © Ricardo Silva Cordeiro Outra fotografia feita com a Zeiss. Se na imagem anterior o desfocado já não era grande coisa, nesta que é mais complexa o fundo fica simplesmente caótico.

Jardim da Estrela, Lisboa, 2009 © Ricardo Silva Cordeiro Mais uma com a Zeiss. Exemplo extremo em que quase toda a imagem está desfocada. Reparem na agressividade na parte superior, mais distante.

 

Depois de alguma investigação (e passando por algumas experiências igualmente insatisfatórias com outras objectivas como a Leica summicron-R 50mm f/2 e a Olympus OM Zuiko 55m f/1.2) acabei por acertar na 50mm que actualmente melhor cumpre os meus requisitos: a Sigma 50mm f/1.4.

Dito isto, esta Sigma não está isenta de defeitos. É grande, pesada e não oferece o nível de detalhe da Zeiss quando usada de f/2.8 para cima. Mas ainda assim, com o diagragma a f/1.4 tem uma qualidade de imagem e contraste bastante superiores à Zeiss, tem o desfocado mais suave que já vi numa 50mm e é possível adquiri-la por um preço que ronda os 400 euros.

Museu da Cidade, Lisboa, 2013 © Ricardo Silva Cordeiro Exemplo de desfocado da Sigma 50mm f/1.4. Um fundo suave e neutro, mesmo que não muito distante.

Tapada das Necessidades, Lisboa, 2013 © Ricardo Silva Cordeiro Mais um exemplo da exemplar Sigma.

Tapada da Ajuda, Lisboa, 2013 © Ricardo Silva Cordeiro Mesmo neste caso mais extremo a Sigma porta-se bem.

 

Partilho esta história para ilustrar a inevitabilidade da existência de compromissos inerente a qualquer equipamento fotográfico, e esta nova Zeiss 55mm f/1.4 não estará imune a esta regra. Opticamente pode estar próxima da perfeição, mas é gigantesca, deverá ser também pesada e, principalmente, terá um preço que ronda os 3000/4000 euros, “defeitos” que imediatamente me fazem não a considerar uma opção. E referi apenas os factores que são problemáticos para mim, outros fotógrafos, com outros requisitos, apontar-lhe-ão outras lacunas como a ausência de função macro, falta de “weather sealing” ou outras características que nem me ocorrem. Ninguém lhe pode negar mérito a nível técnico, mas julgo que a 50mm perfeita continuará sem existir por mais algum tempo.

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Sobre contextofotografico

Falar a apreciar fotografia em português.
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2 respostas a A perfeição já existe?

  1. Eva Maria diz:

    Gostei muito desta review, Sr. Cordeiro.🙂 Não sabia do blog!

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