A sorte de Vivian Maier

Vivian Maier Street Photographer

Mais que em qualquer outro género, na fotografia de rua o factor sorte tem uma influência tremenda. Deambular pela rua com uma máquina fotográfica, na esperança de encontrar um acontecimento interessante mas efémero (sendo necessário registá-lo em um ou dois segundos de forma tecnicamente correcta) pode ser algo desmotivador se pensarmos em termos puramente probabilísticos. A fotografia de rua é por isso exigente: o fotógrafo tem de sacrificar muito do seu tempo para que, em troca, ocasionalmente sinta a sorte do seu lado (um sentimento que se pode facilmente inverter quando o acto de fotografar é falhado, mostrando que é preciso mais que cumprir a velha máxima de “estar no sítio certo à hora certa”).

Vivian Maier Street Photographer

O jovem historiador John Maloof não só esteve no sítio certo à hora certa como agiu acertadamente quando, em 2007, comprou uma caixa de negativos antigos num leilão de Chicago. Apesar de na altura o mundo da fotografia lhe ser desconhecido, ao analisar os negativos em casa percebeu que podia ter em mãos algo especial. Descobriu que tinha adquirido uma importante, vasta e impressionante colecção de fotografias da América dos anos 1950 até 1990, de uma fotógrafa até então desconhecida: Vivian Maier.

Se é certo que foi um golpe de sorte para John Maloof , mais difícil será afirmar o mesmo em relação a Vivian Maier: foi uma mulher solitária, não deixou descendência e morreu pouco antes se transformar num fenómeno; mas mesmo estas poucas informações e a aura misteriosa que rodeia a fotógrafa são parte integrante do seu sucesso póstumo.

Ocorrerá a muitos especular sobre a má sorte de Vivian Maier, mas basta pôr de lado preconceitos sociais para chegar à conclusão que, pela sua dedicação, conseguiu reunir na sua vida uma  colecção de momentos de sorte que é verdadeiramente invejável para qualquer fotógrafo de rua. Teve a coragem de se dedicar plenamente à fotografia, dispender uma grande parte do seu tempo e dinheiro, sem pedir nada em retorno (e isto é o mais admirável).

Apesar desta descobeta ser importante por si mesma, ganha mais valor pelo facto de ser um acontecimento que, provavelmente, está em vias de extinção: a internet trouxe a facilidade de partilha e arquivo de fotografias online, mesmo o mais isolado dos fotógrafos dificilmente não terá exposto o seu trabalho ao mundo. Foi por expor na internet algumas fotografias de Vivan Maier e pedir opiniões sobre as mesmas que John Maloof deu início a este fenómeno.

Vivian Maier Street Photographer

Depois das reacções efusivas da comunidade online e do sucesso de uma exposição em Chicago, John Maloof editou em 2011 o primeiro livro da fotógrafa com o nome “Vivian Maier Street Photographer”. Apesar de se equiparar à maioria dos livros de fotografia em termos de tamanho, acabamentos e número de páginas, este catálogo parece ser apenas uma primeira amostra do trabalho de Vivian Maier. John Maloof tem ainda pela frente um longo trabalho de digitalização, tratamento e organização de todos os negativos que são o resultado das décadas em que Vivian Maier fotografou diariamente. Apesar de possuir uma grande parte do espólio da fotógrafa (estima-se mais de 100.000 fotografias), John Maloof não é o único detentor do seu trabalho: o colecionador Jeffrey Goldstein conta com cerca de 20.000 fotografias de Vivian Maier, um número também impressionante que o levou a publicar recentemente o catálogo “Vivian Maier: Out of the Shadows”, o que leva a antever uma grande variedade de catálogos da fotógrafa num futuro próximo.

Vivian Maier Street Photographer

O formato quadrado do livro é ideal para as fotografias 6×6 da Rolleiflex. Tendo em conta que as imagens aparecem maioritariamente lado a lado, na minha opinião seria desejável que houvesse mais espaço branco à volta das fotografias, sacrificando um pouco o seu tamanho mas evitando a ligeira sensação de sufoco na paginação.

Vivian Maier Street Photographer

As últimas páginas do livro são dedicadas a auto-retratos.

Para saberem mais detalhes sobre a história da descoberta de Vivian Maier recomendo-vos a reportagem da WTTW Channel 11:

Parte 1:

Parte 2:

Parte 3:

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Sobre contextofotografico

Falar a apreciar fotografia em português.
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