Uma fotografia para todos

Sebastião Salgado - alttttt

© Sebastião Salgado  Iguana-marinha (detalhe), Galápagos, 2004.

Se restringisse apenas à fotografia o típico exercício teórico de listar objectos que me acompanhassem para uma ilha deserta, esta imagem de Sebastião Salgado constaria certamente na minha mala de viagem (mesmo se a dita ilha pertencesse ao arquipélago dos Galápagos, o único habitat natural onde podem ser observadas iguanas-marinhas, um detalhe importante como poderão ler mais adiante).

Encaro com alguma estranheza o fascínio que esta fotografia me desperta. Digo isto porque me é habitual gostar de composições mais complexas onde posso observar como vários elementos numa fotografia se relacionam. Mas o que domina a composição desta imagem é uma única pata de iguana-marinha, e é no entanto incrível como na sua simplicidade formal, este elemento solitário me transmite tanto.

Antes de mais, cabe aqui enquadrar esta imagem no seu propósito mais abrangente: esta fotografia pertence ao Projecto Genesis iniciado por Sebastião Salgado em 2004 e que visa mostrar as parcelas do planeta, cada vez mais pequenas, que permanecem livres de intervenção humana. Funcionando como exposição itinerante, o projecto engloba ainda um programa educativo que sensibiliza as mentes mais permeáveis das novas gerações para a fragilidade do ecossistema, e incentiva uma contribuição activa para a preservação e sustentabilidade do planeta. Dito isto, esta fotografia é um perfeito símbolo do projecto: geologicamente falando, o arquipélago dos Galápagos é muito recente (foi formado por erupções vulcânicas há apenas quatro milhões de anos) e é habitado por espécies de animais que não existem em qualquer outra parte. Estas ilhas foram também o berço da teoria da evolução, pois foi precisamente ao observar as iguanas-marinhas dos Galápagos que Charles Darwin concluiu que algumas espécies de animais teriam migrado para estas ilhas recém-formadas e que, ao ficarem isoladas num habitat diferente, evoluíram, adaptando-se a um novo meio e gerando espécies novas e únicas (sendo a iguana-marinha uma delas).

Quando vi de relance pela primeira vez esta fotografia, julguei por um instante tratar-se de uma mão humana – talvez enganado pelo enquadramento ou abstração de cor – e é agora curioso associar esta primeira interpretação inconsciente à teoria da evolução: faz-me pensar na ideia de parentesco, da origem comum a todas as espécies. Observo também a posição delicada – humana – em que se encontra esta “mão”, contrastando com as rígidas   escamas de que se encontra coberta.

Penso em tudo isto quando vejo esta fotografia, e penso também na admirável visão de Sebastião Salgado que parece observar algures de um ponto mais alto o que é realmente importante e que nós cá em baixo – pequeninos – temos tanta dificuldade em ver.

Este é um trabalho de uma importância enorme que transcende o mero projecto fotográfico e que deveria servir de exemplo a todos numa altura em que a “democratização da fotografia” está no seu auge tranzendo uma inevitável produção massiva de conteúdos superficiais. Não quero com isto dizer que o papel da fotografia deva ser restrito a mostrar apenas o que é relevante: é importante que haja de tudo para todos, mas parece-me que este é um trabalho que tem tudo, e é para todos.

Sobre contextofotografico

Falar a apreciar fotografia em português.
Esta entrada foi publicada em fotógrafos estrangeiros com as etiquetas , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s