Um BESphoto diferente

Esta 8.ª edição do BESphoto surpreendeu-me, não tanto pelo trabalho vencedor, mas sim pela escolha do júri. Sempre me pareceu que esta iniciativa esteve desde o início associada a uma vertente mais artística da fotografia e geralmente, os trabalhos seleccionados dificilmente me despertam mais que um bocejo. Não se trata de não gostar deste sub-género de fotografia: muitos dos meus autores favoritos encaixam-se na definição de “artistas que usam a fotografia como meio de expressão” e gosto inclusive de alguns trabalhos realizados por ex-vencedores como o de Daniel Blaufuks. Mas no BESphoto é costume observar uma tendência para (sobre)valorizar a hiper-conceptualização, e é neste sentido que é surpreendente ver seleccionado um trabalho objectivo, honesto e documentalmente relevante como é “Dá Licença” do fotógrafo moçambicano Mauro Pinto.

Este projecto foi realizado em Maputo com a simples e directa premissa de documentar o interior das casas do mítico Bairro da Mafalala, fazendo assim um registo histórico e sociológico da realidade moçambicana.

As fotografias estão em expositores que lembram janelas, numa óbvia alusão ao acto de espreitar. Pode ser discutível a real utilidade das estruturas ou o facto de poderem ou não ter demasiado protagonismo, indiscutível é a má iluminação que proporcionam, criando brilhos e um efeito enevoado na superfície das fotografias.

Apesar de no geral ter gostado de “Dá Licença”, este é um trabalho que pela forma como foi executado, aproxima-se perigosamente de uma tendência vigente para criar colecções de fotografias que não passam de entediantes repetições do mesmo assunto sem que cada imagem acrescente algo realmente significativo ao todo. Mas neste caso, esta repetição acaba por funcionar acentuando o carácter documental do projecto.

A exposição pode ser vista no Museu Colecção Berardo até dia 27 de Maio de 2012. Para além do trabalho vencedor estão também expostos os portfólios dos finalistas Duarte Amaral Netto, Rosângela Rennó e o Coletivo Cia de Foto.

Um exemplo do trabalho “Agora” do Coletivo Cia de Foto (Brasil) em que a escuridão é explorada para criar uma narrativa misteriosa. Um trabalho interessante e pareceu-me igualmente merecedor de um 1.º prémio.

A exposição do único português seleccionado pelo júri: Duarte Amaral Netto. O projecto “Z” começou com a descoberta de negativos dos anos 30 de um familiar do autor que fez um curso de planador na Alemanha. Partindo desde espólio, o autor alterou as datas das fotografias para coincidirem com a Segunda Guerra Mundial criando assim uma narrativa fictícia. Apesar de não gostar do (rebuscado) conceito, tentei ignorá-lo e simplesmente admirar as fotografias pelo seu carácter “vintage” (mas quem sabe se daqui a uns anos não dou por mim a vasculhar discos rígidos e a fazer um projecto “artístico” com álbuns de férias…).

O projecto de Rosângela Rennó (Brasil). O vazio… e em mais que um sentido.

Sobre contextofotografico

Falar a apreciar fotografia em português.
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